Comprar imóvel durante a crise requer mais cautela

19/10/2008


Começa a pairar uma nuvem escura sobre a realização do sonho da casa própria, que vinha sendo concretizado com uma rapidez admirável devido à disponibilidade de crédito. Com a crise financeira internacional, bancos privados brasileiros aumentaram suas taxas de juros para o financiamento imobiliário em até quatro pontos percentuais nas últimas semanas. Outra medida de contenção de empréstimo – tanto para consumidores quanto para construtoras – tem sido a redução de prazos. Para economistas, se antes desse cenário o investimento em imóveis deveria sem bem avaliado, agora a cautela deve ser redobrada. Mais do que isso, o melhor é esperar a poeira baixar. Porém, empresários do setor dizem que não há tempestade por aqui e garantem que o Rio Grande do Norte ainda não sente esses efeitos, principalmente porque o mercado local é, em sua maioria, baseado em crédito da Caixa Econômica Federal (CEF), que não mudou seus critérios para concessão de crédito.

Com a seca que atinge os canais de financiamento no e a debandada de investimento estrangeiro do mercado financeiro, os bancos seguram o crédito que têm em mãos e passam a ser mais rigorosos na concessão de crédito para empresas e consumidores. Diretor de Comunicação e Marketing do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon RN), Carlos Juiz diz que as empresas do setor, de um modo geral, deverão reduzir a velocidade dos investimentos.

“Os lançamentos que já estavam programados vão ocorrer, mas nos novos com certeza as empresas vão dar uma segurada”, avalia Carlos Juiz. Grandes companhias que têm negócios no RN estão revendo suas metas. A Rossi, por exemplo, revisou seu plano de lançamentos imobiliários, de R$ 2,5 bilhões para R$ 2,150 bilhões em 2008, e de R$ 3 bilhões para R$ 2,2 bilhões, no ano que vem. Para o empresário Ricardo Abreu, da Abreu Imóveis – que mantém parceria com a paulista Cyrela – se esse cenário se mantiver, o impacto das revisões dessas companhias de grande porte só deve aparecer por aqui a partir do segundo semestre do próximo ano. “Os empreendimentos que foram lançados e ainda não saíram agora são por falta de alvará, não por retração das empresas”, afirma Ricardo Abreu.



Caro

Mas a disponibilidade de dinheiro para as empresas é apenas um dos lados. O crédito está mais caro para o consumidor e a área imobiliária não consegue fugir desse problema. A Caixa Econômica Federal afirma que a última alteração feita nas taxas de juros foi uma redução, no início do ano, mas os bancos privados já elevaram suas taxas do crédito imobiliário para pessoa física.

Segundo informações da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), houve aumentos de até quatro pontos percentuais. Em um dos bancos privados que atuam em Natal, os juros que eram de 9% e 11,5%, foram aumentados recentemente para 10,5% e 13,5%, respectivamente. “Com exceção do Banco do Brasil e da Caixa, todos as demais aumentaram”, afirma o vice-presidente da Anefac, Manuel de Oliveira. Ele destaca também que os prazos estão sendo encurtados.

“O momento não é de se fazer nenhuma dívida, principalmente as que ultrapassem seis meses”, orienta o economista Cláudio Barbosa, professor da UFRN. Ele lembra que as oscilações do mercado financeiro são tantas que a espera de alguns meses pode significar uma economia significativa, no caso de a crise recuar e a volatilidade dar lugar à estabilidade.

Entre os empresários, há quem reconheça a necessidade de cautela. “O conselho não é que deixe de comprar, mas que tenha mais cuidado”, diz Jorge Mororó. No entanto, a maioria dos agentes do mercado faz coro quando diz que a necessidade de comprar um imóvel será mais forte do que a insegurança que a crise possa gerar nos consumidores.

É preciso esperar para saber impactos

Uma fonte ligada ao mercado financeiro local admite que a busca por crédito imobiliário caiu nas últimas semanas. Mas, segundo ela, “as pessoas que têm nos procurado não têm falado sobre taxas, mas estão se preocupando se a parcela vai encaixar no orçamento”. Esse é um comportamento combatido pelos economistas e especialistas em finanças pessoais e defesa do consumidor. Eles orientam sempre a análise principalmente da taxa de juros e das tarifas cobradas. Porém, mesmo que a preocupação seja apenas poder pagar a parcela, a cautela com a crise deve ser a base das atitudes tomadas pelo comprador.

O vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel de Oliveira, ressalta que além da atenção com o aumento do custo dos financiamentos, é preciso esperar para ver como a crise vai atingir os empregos e a renda da população. “Nesse momento o que não se deve fazer é fazer”, brinca Miguel, ao alertar sobre a necessidade de paciência por parte dos consumidores.

Economista, o professor da UFRN Cláudio Barbosa lembra que, como se pode prever o fim da crise, ainda há muitas ações que podem mudar o rumo da economia. “Se o governo federal lançar pacotes de proteção à construção civil, que é um setor muito importante na economia, as condições para os compradores podem melhorar”. Por isso, o economista destaca que a paciência deve ser atrelada ao acompanhamento das notícias sobre o andamento da crise. “É preciso estar atento para não se precipitar e não cair em armadilhas”, aconselha o professor.

Resorts do turismo de segunda residência são mais afetados

Maior do que os transtornos causados ao mercado doméstico foi o golpe que a fuga de capital em grupos e fundos de investimento estrangeiro deu nos empreendimentos turísticos do litoral potiguar. A turbulência forçou os grupos responsáveis por grandes resorts a fazer reestruturações administrativas e nos planos de construção, o que vai alongar os prazos, que já eram naturalmente espaçados devido ao grande porte dos projetos.

Dentre os poucos grandes empreendimentos que começaram as obras – dois, de acordo com fontes consultadas pela reportagem – um está com as vendas fracas e outro adiou os prazos devido a alterações no projeto. “Os grandes empreendimentos já estão sendo repensados e reprogramados”, diz o diretor da Área Internacional do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon) do RN, Jorge Mororó, que também é conselheiro da Associação para o Desenvolvimento Imobiliário e Turístico (Adit Nordeste).

O grupo Sánchez, que participa do maior projeto do RN, já vinha sentindo os efeitos da crise antes de seu pico. Em março, a matriz espanhola pediu concordata preventiva, chamando a atenção dos potiguares sobre como as tensões do mercado imobiliário norte-americano já atingiam a Europa. Em abril, o tradicional Salão Imobiliário de Madri teve 40% menos imóveis do que no ano passado.

Apesar desses obstáculos, o diretor do Sánchez no Brasil, Alberto Gonçalez afirma que o grupo está fechando este mês as parcerias que precisava para desenvolver o projeto. No entanto, ele admite que estão sendo feitas reformulações, inclusive no público alvo. Dos quatro condomínios que começarão a ser construídos no próximo ano, dois poderão ser dedicados aos compradores brasileiros. Antes todos os esforços estavam voltados para estrangeiros. As alterações deverão atrasar o início dos serviços: o prazo saiu de janeiro para até o fim do primeiro trimestre do próximo ano.

Apesar da força com que a desconfiança com a crise atingiu o comprador da Europa e dos EUA, Mororó acredita que outro reflexo da crise vai atrair novamente o pequeno investidor estrangeiro ao RN: a valorização do dólar deverá trazer de volta “aquele que tem um poupança e se junta com um ou dois amigos para apostar em pequenos empreendimentos por aqui”, visando especialmente meios de hospedagem (hotéis e pousadas, com até 50 apartamentos).

Caixa ainda é melhor opção para empréstimo

Para o vice-presidente da Anefac, Miguel de Oliveira, no momento a Caixa é a melhor opção de crédito porque tem dinheiro disponível e não aumentou taxas de juros. Isso por, basicamente, dois motivos: é um banco público que tem recursos públicos, como os do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), que têm custo zero; e como instituição ligada ao governo, é alvo de pressão para que as taxas sejam mantidas.

De acordo com informações da Caixa, não houve mudança nas taxas e tarifas do crédito imobiliário para pessoa física. A última alteração foi em abril deste ano, quando houve uma redução das taxas.

E o banco está otimista. De acordo com informações da superintendência local, entre janeiro e setembro deste ano o volume de financiamento imobiliário superou R$ 125 milhões no RN, 33% a mais do que o movimentado no mesmo período do ano passado.

Para o superintendente da Caixa Econômica no RN, Jorge Gurgel, ainda é cedo para se fazer qualquer previsão para o mercado imobiliário. “O que se pode dizer é que, quando o mercado de capitais passa a apresentar maior risco, uma das tendências naturais dos investidores é aplicar em ativos mais seguros e é nesse cenário que não vislumbramos crise, ofertando crédito à população e empresas com manutenção de taxas e prazos para o financiamento imobiliário”. Segundo ele, o imóvel é um investimento seguro e, se o preço estiver adequado ao mercado, é possível que haja até aquecimento nesse segmento.

http://tribunadonorte.com.br/90615.html


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